Fiquei perto da saída de um grande posto de gasolina às margens da auto-estrada que ia para o sul da Argentina e com uma saída rumo ao Chile. Esperei um certo tempo (cerca de 1h) até conseguir carona, e minha “placa” com o nome do lugar para onde queria ir dizia “Potrerillos”, um lugar no caminho para o Chile, mas ainda do lado argentino.
Considerei mais fácil usar uma placa com cidades no caminho do que uma dizendo que ia para o Chile. Na entrada da cidade de Potrerillos, o homem de uns cinquenta e poucos anos que me havia dado carona me deixou, entrou na cidade, e eu comecei minha nova etapa para o Chile.
Comecei novamente a pedir carona, e no trajeto desde o posto até ali, ultrapassamos alguns caminhões brasileiros. Empolgado com a possibilidade de conseguir carona com um deles, estava animado de pedir carona naquele ponto já que o lugar era amplo, o dia estava claro, e eu afinal era brasileiro.
Os caminhões começaram a vir, mas pra meu desânimo nenhum, nem um único caminhão com placa do Brasil parou pra mim, a despeito da placa dizendo “desde Brasil a dedo”, e de eu gritar “sou brasileiro!”, haha. Desapontado, continuei esperando, afinal, cedo ou tarde alguém me daria carona.
Um motorista argentino que ia até a cidade de Uspallata me levou finalmente, e me deixou em uma curva, na frente de um posto de gasolina, já que ele ia entrar mais na cidade (essa curva era meio que na cidade já). Esperei ali um tempo com a placa “desde Brasil a dedo” e não consegui nada. Um caminhoneiro brasileiro disse, com tom indiferente, que não poderia me levar, e só.
Outros passaram, e alguns a quem pedi carona me diziam que iam até a aduana que tinha logo à frente apenas. Depois de ver que o lugar era difícil de pegar carona (nem espaço direito para o caminhão parar tinha) decidi conversar com um motorista e ele me levou até a tal aduana. Um espaço aaaamplo, com uma espécie de prédio-galpão e do lado um espaço imenso com chão de terra, onde os caminhões ficavam estacionados.
Pedi carona ali, depois com a recomendação de um motorista entrei no lugar onde ficavam os caminhões, conheci alguns brasileiros (inclusive um casal de uns 50 anos) que estavam parados ali, e depois de muita conversa um outro motorista brasileiro falou com um chileno que havia acabado de chegar que eu era estudante, estava pedindo carona, o cara olhou pra mim, falou que já voltava, resolveu as coisas dele em uns 30 minutos e falou na volta que me levava. Animado, lá fui eu.
Tags: Argentina, carona em caminhão, Chile
Vou tentar resumir esse post já que o blog anda meio atrasado, muita coisa já aconteceu e eu ainda não terminei de escrever tudo. Renovei o domínio pra mais um ano e não posso deixar aqui parado né.
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Bem, cheguei na finca El Peregrino, uma fazenda do WWOOF que eu havia conhecido muito tempo antes pela internet e acabou sendo minha opção de lugar para ficar já que era uma fazenda de vegetarian@s (e vegan@s).
Desci do ônibus, chamei, chamei, e como ninguém respondeu fui entrando, até que alguém me respondeu e fui até o lugar, que logo vi ser a cozinha e sala, com mais um ou outro cômodo pelo que pude ver, e ali me recebeu Ana, a mãe da família e uma senhora muito simpática e gente fina que em dois minutos me deixou completamente à vontade.
Ali, naquela fazenda prioritariamente de maçãs, fiquei por 3 semanas. No dia que cheguei éramos, comigo, 5 voluntários. O 5º foi embora dois dias depois, o único vegetariano dos voluntários, que pelo pouco que vi era um tanto complicado e acabou se envolvendo em uma discussão com o pessoal da casa, por reclamar de trabalhar sem receber.
Acontece que ele estava viajando sem um tostão (tinha 10 pesos então, uns R$4,50), e queria trabalhar por grana, mas afinal, o WWOOF não é sobre dinheiro (embora eu comece a me preocupar com projetos semelhantes e mesmo o WWOOF estar começando a ter algumas fazendas e lugares simplesmente interessados em mão-de-obra gratuita, é algo para ficar atento), e quando ele discutiu (com tom calmo) na sala, no meio de todo mundo com uma das pessoas da fazenda sobre ser conveniente para eles estarmos trabalhando sem eles pagarem, vi que ou ele ia embora, ou pediriam que ele fosse.
Me surpreendi vendo que não pediram que ele fosse, embora ele depois, mais à noite, tenha me falado que iria no dia seguinte. Foi, de fato.
Com exceção de mim, eram todos dos EUA. Uma garota de 20 anos de Washington e um casal de uns 22 de L.A.. Nos demos bem, e trabalhamos juntos uma semana, já que o casal se foi. Natalie, a garota que ficou, acabou virando uma boa amiga nas semanas seguintes.
O tempo passa diferente quando se vive em um lugar assim, tirando ervas-daninhas da horta, conversando e fazendo trabalhos simples. Eu fiquei no total 3 semanas, mas pareceu muito, muito mais.
Depois foram chegando mais voluntários para a colheita das maçãs, dois amigos espanhóis com 33 e 34 anos, um casal onde ele (30) era da Bélgica e ela (28) da Irlanda, uma outra garota (22) dos EUA, dessa vez Boston, e depois mais um dos EUA, dois espanhóis (que não vieram juntos), dois franceses e um colombiano.

Parte das maçãs - veja mais no flickr
As histórias de todos são interessantes e peculiares, uns resolveram dar a volta ao mundo, outros conhecer a América Latina, e outro até se juntar a uma comunidade alternativa, que viveria sem dinheiro, depois de conhecer aquele documentário (e o projeto homônimo) Zeitgeist. Esse último largou tudo no país onde morava, vendeu a loja de roupas e tudo mais e veio para a Argentina.
Mas afinal isso é um blog e não há espaço pra detalhar tudo. Num futuro livro, quem sabe.
Fiquei na verdade duas semanas como tinha planejado, e foram duas semanas incríveis onde finalmente vi pés de maçã (que não conhecia) e me fartei de comê-las, colhê-las, fazer suco e tudo mais. Saí da fazenda e fui para Mendoza, ficando na casa de um cara de uns 40 anos, gay, e pelo que depois vim a saber professor de psicologia, o que foi um ponto interessante para algumas poucas conversas, já que ele não ficava em casa praticamente nunca.
Mas aí a saudade bateu, e eu lembrei da fazenda, de todos, dos almoços e jantares divertidos, das conversas e tudo que vi, fiz e aprendi, e acabei voltando e ficando a terceira semana (até porquê, no final dessa semana muitos iriam embora, então sairíamos “juntos”). Fiquei, curti e saí na semana seguinte, uns tendo ido na véspera e outros pretendendo ficar mais dias.
Em um dos finais de semana que fiquei na fazenda, saí para conhecer as redondezas, visitei uma bodega graças a um cara que me deu carona para a cidade próxima onde usava internet nas horas vagas (ele trabalhava na bodega e ofereceu me mostrar) e fui até as montanhas o mais distante que pude, até a Gendameria argentina, a alfândega deles.
Dali em diante era a fronteira com o Chile e eu e a Julie, que foi comigo, não acharíamos nada interessante. Na verdade meu intuito era ir o mais alto possível e achar neve. Não consegui, embora eu pudesse vê-la e ela parecesse estar tão perto.
Saí da fazenda tendo marcado com alguns de nos encontrarmos em Santiago, já que os dois casais, além de Natalie e antes Rubén (um dos espanhóis, o de 33 anos) haviam ido para lá.
Para ir embora peguei carona com Ignácio (o pai da família) até um posto de gasolina que ficava ao lado da saída da auto-estrada rumo ao Chile. Ele ia para Mendoza e teria que passar por ali, de modo que me deixou no caminho. E lá estava eu novamente na estrada, rumo ao Chile dessa vez.
(Se o texto parece grande, acreditem, eu resumi o que foi possível, hahaha)
Tags: Argentina, relatos de viagem
Acordei depois daquelas poucas horas de sono no posto de gasolina, agradeci a todos e guardei meu saco de dormir. Os frentistas fariam troca de turno, e quando os simpáticos que me haviam ajudado saíram, saí também. Fui pra rodoviária, usei a internet, procurei um albergue pra passar o dia em Mendoza, e ainda indeciso saí a caminhar pela cidade, com as duas mochilas.
Rodei um pouco pelas ruas de Mendoza, e com fome decidi procurar um lugar pra comer. Antes, por segurança, parei em um supermercado bem próximo da rodoviária e comprei minha querida Frutigram, uma bolacha deliciosa, que tem muitas versões e eu como sempre da amarela, a única vegana.
Andei, vi as ruas, a cidade parecia se preparar para uma festa, que depois vim a saber ser a Vendimia, a festa da colheita da uva. Para os que não sabem, Mendoza é grande produtora de uva para produção de vinhos.
Depois de rodar pela cidade, procurei um restaurante vegetariano, perguntei a pessoas que encontrei na rua, muito cheia aliás, perguntei em uma loja de produtos naturais, e o único restaurante que me indicaram ficava a uns quilômetros dali, e eu não queria pegar ônibus, já que teria que trocar dinheiro em moedas (como em Buenos Aires, ali os ônibus usavam moedas também).
Fui em dois restaurantes vegs nos arredores e bizarramente os dois tinham praticamente TODAS as comidas cobertas com ovos. Eu só consegui comer no segundo porque havia um único tipo de arroz sem ovos por cima, porque os outros dois (e todas as opções do outro restaurante) tinham ovo por cima. Uma tara louca por ovos que não consegui compreender até agora. Costume regional de Mendoza, sei lá.
Comprei a comida e tive que ir procurar lugar para comer, já que era um restaurante de comida para llevar, e pelo que entendi a Argentina estava cheia desses restaurantes por questões de legislação sanitária, já que ter um lugar onde os clientes pudessem comer implicaria em cumprir algumas condições que, aparentemente, poucos estavam dispostos a (ou tinham condição de) cumprir.
Comi em uma praça, bonita, com árvores grandes e frondosas e pessoas passeando. Depois me surgiu um problema muito comum também no Brasil em cidades maiores: banheiro. É curioso como não se encontram banheiros públicos em lugar nenhum nos grandes centros. Os raríssimos que vejo no Rio são pagos.
Consegui achar um pequeno bar-restaurante que me permitiu usar o banheiro, um espaço pequeno onde mal consegui entrar com as mochilas, e depois saí dali para a internet. Minha dúvida era se ficava em Mendoza para conhecer a cidade e poder falar com a namorada, ou se ia direto para a fazenda, provavelmente ficando sem internet, e voltava em Mendoza semanas depois — duas, como havia planejado.
Fiz as contas, e vi que era melhor ir direto para a fazenda. Me parecia mais inteligente ir de ônibus, já que não sabia para que lado era a fazenda na província de Mendoza além do que vi no mapa não muito detalhado na internet, e como havia um “tutorial” ensinando quais ônibus pegar, além do preço ser barato, fui de ônibus mesmo.
Logo que o ônibus saiu da cidade de Mendoza o sono chegou, e sabendo que pararia na rodoviária para então pegar outro ônibus, me permiti dormir e descansar um pouco. Peguei outro ônibus ao chegar em Tupungato, cidadezinha pequena com ares de cidade deserta, e fui para a fazenda. Desta vez, atento ao caminho, já que teria que descer em um trevo qualquer, de cara para a fazenda.
Ali, naquele ônibus um tanto velho e com uma porta que decidira não se fechar mais, vi os Andes encobertos de nuvens, a neve clara cobrindo alguns picos, e pensava comigo, entre caminhos feitos apenas de retas quase infinitas e vilarejos de colhedores de uvas, o que levou a família da fazenda para onde estava indo a escolher aquele canto de terra.

Foto à frente da Finca El Peregrino
Tags: Argentina, El Peregrino, Mendoza, relatos de viagem
Entramos no caminhão e expliquei ao caminhoneiro, Sebastian (que tinha um cabelo e aparência no geral muito parecidos com o Hurley de Lost), que eu na verdade estava indo para Mendoza, mas que dormiria em Villa Mercedez, e que de Junin ia pedir carona no pedágio até Villa Mercedez. Ele me disse que não poderia me levar além de Junin, apesar de ir naquela direção. Agradeci mesmo assim, e disse que já era de grande ajuda, mas eu já havia sentido que, com um pouco de conversa, conseguiria convencer ele. Ele depois me disse que ia na verdade até Mendoza.
Com cerca de meia hora de viagem, ele já havia dito que me levaria até Villa Mercedez, mas reforçou que não poderia me levar adiante. Ótimo, agradeci de novo, mas ainda estava esperançoso. Mais uma hora de viagem, e Sebastian falou “ok, se você quiser, eu te levo até Mendoza”. Agradeci e aceitei, feliz. Essa estava sendo a carona mais longa na viagem: 850km, desde Chacabuco até Mendoza. Não teria onde dormir em Mendoza, mas que se dane, era uma carona e tanto. Eu preferi ir direto, apesar de saber que chegaria de madrugada em Mendoza sem ter onde dormir, a ficar em Villa Mercedez e talvez ter o azar de não conseguir sair de lá no dia seguinte.
Seguimos viagem, e eu não me dei conta de que seria tanto tempo de estrada. A única vez que paramos em um posto de gasolina, foi a primeira vez desde que saí do Brasil que eu via placas brasileiras novamente: dois caminhões do Brasil estavam parados ali. Conversei por cinco minutos com um caminhoneiro, simpático, do Rio Grande do Sul, e no final da conversa, depois de já ter dito aonde estava indo, o caminhoneiro me falou, inesperadamente, que poderia me dar uma carona mais adiante de Mendoza se eu quisesse. Peguei com ele o nome de uns postos de gasolina bons para carona em Mendoza, e nos despedimos.
A estrada continuava infinitamente adiante, retas gigantescas cruzando uma paisagem desértica, vazia, silenciosa. O caminhoneiro me falou das folhas de coca, que alguns usavam pra continuar dirigindo sem sono (assim como café e coca-cola), e disse que apesar de até crianças mascarem na Bolívia — já que era algo muito mais antigo que a chegada dos espanhóis — na Argentina era proibida. No entanto, ele tinha ali uma sacola plástica cheia de folhas. Perguntou se eu queria. “Claro!”, respondi, entusiasmado de finalmente experimentar. Masquei um punhado, e ele me disse para, depois de mascar um pouco, colocar aquele amontoado de folhas no canto da boca, entre os dentes e a parede da boca.
Passado um tempo, eu coloquei mais folhas, mas vi, no fim das contas, que as famosas folhas de coca — que não só deixavam despertos os que as mascavam, mas também tiravam a fome — comigo não tinham muito efeito. Eu estava desperto, sim, mas com sono ainda depois de tantas horas sentado ali, e a fome me chamava a todo momento. Eu só havia trazido — por burrice — um pacote e meio de um biscoito muito ruim que havia comprado em Buenos Aires ainda, e foi com ele que me mantive na viagem até Mendoza. Água ruim e biscoito sem sabor de nada. Parecia um pedaço fino de terra que fora embalado e vendido acidentalmente aos compradores mais desavisados.
Ao entrar na província de San Luis eu vi o que era o maior desperdício de eletricidade que eu já havia visto na minha vida: desde a fronteira com a província de Córdoba, até a outra fronteira, com a província de Mendoza, por mais de 200km, a ruta 7 era iluminada por postes imensos e brilhantes. Estavam dispostos com uma distância de cerca de 50 metros um do outro, e iluminavam o caminho até sua luz se perder no horizonte. O problema todo não era essa iluminação em si, afinal, se houvesse cidades ou vilarejos às bordas da rodovia, faria todo sentido. A questão é que durante praticamente todo o trecho não havia nada às margens da pista. Nenhuma casa, prédio, comércio, nada. Apenas aqueles postes até o infinito iluminando o deserto ao nosso redor.
Por fim chegamos em Mendoza. O motorista me deixou perto da rodoviária, e eu havia resolvido dormir lá. Entretanto, ao chegar lá, vi que não havia nada aberto, como ele me disse que teria. Saí e fui até um posto de gasolina. Peguei água, e depois fui até outro posto. Havia internet wifi, mas não havia computadores disponíveis, ou seja, só daria pra usar quem tivesse seu próprio aparelho. Aliás, fiquei impressionado com isso durante a viagem: eu achava mais facilmente spots wifi gratuitos do que computadores pra usar a internet, pagando.
Os frentistas do posto me disseram onde encontrar hospedagens e hotéis baratos que talvez estivessem abertos àquela hora, 3h30m da manhã, e lá fui eu com a parafernália andando pelas ruas um tanto escuras — e perigosas, me disseram os frentistas — de Mendoza. Os lugares estavam fechados, e voltei pro posto. Por fim, depois de mais de uma hora sentado lá conversando com os frentistas simpáticos e divertidos, um deles me deixou estender o saco de dormir na parte de cima do posto, em um canto protegido do vento (fazia frio) mas com a visão do céu negro e levemente pontilhado de estrelas. Ali, exausto, eu dormi, por quase duas horas.
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Desde Olavarría eu já havia decidido que, após passar por Buenos Aires e resolver o problema do cartão (que no fim das contas não era problema no cartão), ia rumar para o oeste e não para o sul. Uma vez que não ia até Ushuaia mais, resolvi me dar de “prêmio de consolação” a viagem até o Pacífico.
Ainda no Brasil, já havia visitado o site de uma fazenda orgânica associada ao WWOOF, próxima à Mendoza, e me programei pra ficar na fazenda — que é no caminho para o Chile — e depois rumar pro outro oceano. Entrei em contato com a fazenda pela internet, eles responderam, confirmei minha ida, e lá fui eu.
Saí de Buenos Aires pela manhã do dia 3 de março. Fui pra esquina da casa onde estava hospedado e tentei subir no ônibus. O problema era que não tinha moedas, e mesmo pra uma viagem pra outra cidade (seguia as indicações do autostop argentina pra sair de Buenos Aires e começar a pedir carona numa cidade próxima) as moedas eram necessárias. Como já falei, era o sistema mais burro do mundo de cobrança nos ônibus, esse de Buenos Aires. O motorista me falou que eu poderia comprar um cartão pré-pago, cuja idéia era similar aos cartões que usamos no Brasil, mas o cartão lá era descartável e frágil. Tive que comprar um cartão com um valor muito maior do que o necessário, simplesmente porque não havia cartão menor. Tentei negociar com o vendedor, mas não havia jeito.
Seguindo a sugestão de uma senhora com quem conversei no ponto de ônibus, resolvi tentar vender no ônibus, uma vez que ainda havia no cartão bem mais da metade dos créditos. A primeira pessoa com quem conversei quis comprar. Vendi 3 pesos mais barato, mas ainda assim foi bastante lucrativo, já que não voltaria à Buenos Aires.
Fui até Luján, e de lá ia pegar um ônibus até o pedágio de Villa Espil, onde enfim começaria a caronar para o oeste. Ao chegar em Luján, tive uma grata surpresa: aquela cidade, que me parecia uma cidadezinha qualquer, tinha uma basílica gigantescamente linda. Talvez apenas sua imponência, ou o fato de eu não estar esperando encontrar nada na cidade, não sei bem, o fato é que saí de lá seguro de que demoraria a ver algum outro prédio tão bonito. Não entrei, não tinha tempo, nem fotografei (porque havia pouco tempo e estava ansioso em começar a caronar antes que fosse muito tarde), mas mesmo de longe, a visão da Basílica subindo rumo aos céus se destacava no horizonte e no céu azul daquele dia ensolarado.
Dali fui de ônibus até o tal pedágio. Eu estava seguindo, como falei, as orientações que vi no site “autostop argentina” (autostop = carona em espanhol), e ali, pedindo carona, estava bem apreensivo, pois deveria pegar uma carona até Junin, onde havia outro pedágio, e de lá seria mais fácil para chegar em Mendoza. Eu, por precaução, havia pedido couch em Villa Mercedes, 360km antes de Mendoza, porque, considerando a distância de Buenos Aires até Mendoza, imaginava levar dois dias na estrada até lá. Eu estava apreensivo mais especificamente porque um dos caroneiros do fórum do site havia ressaltado para os caroneiros e caroneiras nunca cometerem o erro de pegar uma carona até um trecho qualquer do caminho, para aceitar apenas caronas até o pedágio, e até as cidades principais (Villa Mercedes, San Luis e Mendoza), do contrário, acabariam no meio do nada, naquela paisagem desértica, sem nenhuma carona pra sair de lá.
Eu esperei meia hora, e um caminhoneiro parou. Ia até Chacabuco, cerca de 100km adiante, mas ainda seria antes de Junín. Era por volta de meio-dia, e eu, receoso de não conseguir outra carona, aceitei. Fomos conversando a viagem inteira. Simpático, disse que fazia questão de ir conversando com os caroneiros que pegava. Chegamos em Chacabuco e ele me deixou uns 300 metros depois de um posto de gasolina, em um trevo onde supostamente seria mais fácil pegar caronas.
Desci no trevo, o sol forte me queimava a cabeça. Já havia ficado dolorido com queimaduras de sol na viagem, mais de uma vez. Esperei um tempo perto de uma placa. Eu segurava a minha, “Junin”, dizia, em letras grandes vermelhas. Esperei meia hora, e nada. Resolvi mudar de lugar. Mais uns 15 minutos, e nada. Poderia esperar mais ali, mas duvido que alguém me desse carona, apesar de ser um trevo normal, eu senti que ali não conseguiria nada. Fui caminhando sob o sol até o posto.
Cheguei no posto suado, bebi água de uma torneira supostamente potável, mas que tinha uma cara horrível. Usei o banheiro, e dei uma boa olhada no posto: um posto pequeno e feio, sem piso cimentado, apenas uma poeira cinza que subia com a passagem dos caminhões, aquele chão acinzentado por toda parte. “Merda”, pensei. Não ia poder colocar minha mochila no chão, pois ia ficar toda suja, e não haveria caminhoneiro nesse mundo que fosse me levar com tudo sujo daquela terra cinza.
Rodei pelo posto pedindo carona aos caminhoneiros. Felizmente na Argentina se pode falar com eles nos postos. Pedi algumas vezes e nada. Havia poucos caminhões ali, e já era por volta de 16h30m. Comecei a ficar preocupado de verdade, já que, apesar de anoitecer por volta as 19h30m, a tarde já ia embora, e eu vi que seria difícil sair dali. Coloquei a mochila grande nas costas, a pequena entre as pernas (pra não sujar no chão) e fui pra saída do posto, pedir carona a quem passava na pista. Eu devia estar com uma aparência curiosa, todo desengonçado segurando a placa, a mochila entre as penas, outra grande às costas, protegendo o rosto da poeira que os caminhões que passavam levantavam. Sei que deveria estar com tal aparência curiosa porque dez minutos depois de começar a pedir, um dos caminhoneiros que estavam no posto, ao qual eu já havia pedido carona, me chamou e disse que ia me levar até Junin. Disse que não sabia que era tão perto o lugar aonde eu queria ir. Agradeci e entramos no caminhão.
[Continua]
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De volta a Buenos Aires, a situação estava meio complicada: o Amir não poderia me receber direito, porque alguém na comuna havia reclamado dele receber visitas sempre, e Juan me falou por facebook que o dono do apartamento — que mora em frente a ele — reclamou deles terem recebido gente, dizendo que isso não estava no contrato, e que ele havia proibido isso porque eles não pagavam água nem luz nem internet, e com mais gente o dono teria mais gastos.
Cheguei a ficar emergencialmente na casa do Amir, mas já estava procurando couch. Aproveitei esses dias e fui no Banco do Brasil de Buenos Aires, e o atendente me disse que não, não era problema com o meu cartão. O problema era na rede “Banelco”, e ele me disse que às vezes as pessoas insistem em tentar nos caixas afiliados ao Banelco e a dor-de-cabeça é ainda maior, porque o cartão acaba sendo bloqueado no Brasil. Daí me disse para só usar os caixas da rede “Link”. Eu saí, fui em um caixa da rede link, e pronto, tinha dinheiro novamente.
Quanto ao couch, a Bia (aquela brasileira que conheci no meeting) me salvou, pois conversou com um conhecido do couchsurfing que aceitou me hospedar. Fiquei lá dois dias. Em um desses dias, aconteceu um picnic do couchsurfing, em uma praça em Palermo, de noite. Fui, e lá, depois de combinar via facebook, encontrei finalmente o Andejo, ou melhor, Carlinhos, um dos caroneiros cujo blog eu já conhecia desde um bom tempo antes, e que com a ajuda da Sandra (a brasileira que conheci no outro meeting) eu passei a conversar pela internet.
Conversamos bastante, bebemos algumas cervejas, compradas ilegalmente em um bar próximo, as quais eu trouxe dentro da mochila, e ouvi algumas histórias de suas viagens. Conversamos também com outras pessoas do couchsurfing, e em certo momento Carlinhos pegou o violão que circulava, e cantei junto com ele um par de músicas.
O fim do meeting se aproximava, e ele foi embora com o penúltimo grupo a deixar a praça. eu fui no último, claro. Saímos todos da praça, um grupo pequeno, de uns oito, e no caminho encontramos um sujeito branquelo, baixinho, com um olhar entorpecido pelo álcool e o nariz e parte do rosto sujos de sangue. Era um estadunidense que resolveu ir embora sozinho mais cedo, e contou que dois caras se aproximaram, e simplesmente começaram a bater nele, e quando estava no chão, roubaram seus documentos e dinheiro. Havíamos visto esses caras ao redor do meeting, jogando futebol na mesma praça, e um deles havia chegado perto do pessoal e pedido maconha e bebida.
Daí que eu e meu host fomos, junto com o grupo, caminhando com o rapaz e ao passar em frente a uma delegacia entramos e ele fez o boletim de ocorrência. Era curioso para mim estar dentro de uma delegacia, fosse pelo motivo que fosse. Saímos dali um tempo depois, e eu e meu host nos separamos do grupo, e fomos pra sua casa. Eu ia caronar rumo à Mendoza no dia seguinte, mas cansado como estava, desisti e dormi até mais tarde, e no dia seguinte procurei de noite pela internet como faria para ir até a outra saída da cidade. Por sorte, o ônibus que me levaria parte do caminho, passava na esquina onde meu host morava. Sorte. Aliás, a mesma sorte não me abandonou no caminho até Mendoza. Mas isso fica pra outro post.
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Olavarría
Depois de conversar pelo facebook com a filha de João, conversei novamente um tempo depois, e aparentemente sua mãe, que me havia recebido no quartinho dos fundos, não estava em casa, pois havia viajado. Daí que eu senti mesmo pelo facebook uma resistência imensa da mulher dele. Pra saber a resposta sobre poder ficar lá ou não, resolvi ir até a casa dele. Caminhei bastante por Olavarría com as duas mochilas, e no caminho tentei sacar dinheiro, porque senti que provavelmente seria necessário naquele dia. Aí veio uma surpresa interessante: as máquinas não estavam aceitando o tipo de operação, ou seja, não consegui sacar dinheiro. Preocupado com aquilo, vi que no fim das contas teria que voltar a Buenos Aires pra resolver esse problema.
Saí dos caixas eletrônicos (pois claro, fui em mais de um tentar) e fui até a casa de João. Resumidamente, senti o clima que ficou com a minha volta, mas basicamente pela mulher dele, já que tanto ele como a filha e o outro filho que conheci, estavam bem com a idéia de eu ficar lá. Acontece que como a mãe dele não estava lá pra me receber, a única opção seria ficar na casa dele, e aí que entrava a esposa, completamente reticente com a idéia.
João, a despeito da reticência da mulher, ainda tentava ser o mais prestativo possível. Conversamos lá na sala da casa dele, e contei sobre o problema do cartão. Daí fomos pensando nas possibilidades: eu poderia pegar o trem de madrugada para Buenos Aires. Mas aí descobrimos que havia uma greve nos trens, justamente naquele dia, que duraria 24h. Ótimo. Pensamos em eu ficar em um hotel, e no dia seguinte ir no primeiro trem para Buenos Aires. Mas aí havia outro problema: eu não tinha dinheiro em papel suficiente pra pagar o hotel, e pagar o trem no dia seguinte, e o cartão, sabe-se lá porquê, não estava funcionando. Por fim, uma vez que a mulher dele claramente não me queria dormindo ali, eu sugeri que poderia ir pro terminal rodoviário e dormir lá, e no dia seguinte pegar um trem. A mulher dele falou pra eu perguntar na estação de trem (que ficava ao lado da rodoviária) à meia-noite (horário que voltava a funcionar) o horário do próximo trem, pois ela estava certa de que iriam voltar a funcionar antes do esperado. A certeza dela parecia ser apenas a vontade imensa de que eu fosse embora.
João e a esposa estavam saindo, e me deram uma carona até a rodoviária. Ele me disse que por volta da 1h passaria lá para ver se eu estava bem, e eu podia ver no seu rosto a expressão de insatisfação, uma vez que ele queria me ajudar, mas ao mesmo tempo não queria ter problema com a esposa. Eu falei que ficaria bem, que ele não precisava se preocupar, e depois que ele saiu logo fui até um kiosco 24h do outro lado da rua, e conversando com o atendente, consegui que ele deixasse eu colocar as mochilas ali quando fosse dormir, porque no fim das contas, o meu único receio era pelo fato de não ter barraca, de modo que ao dormir, as mochilas ficariam ao meu lado, e qualquer um que fosse silencioso o suficiente, poderia ir até lá e mexer.
Fiquei no kiosco conversando com o atendente nos intervalos, porque mesmo sendo tarde muita gente vinha comprar coisas, e afinal, kioscos tem todo tipo de coisa — sobretudo aquele. Meia noite fui na estação de trem, mas estava tudo apagado. Voltei pro kiosco, e por volta da 1h fui até a rodoviária e encontrei João. Fomos até a estação ferroviária novamente, porque ele disse que sua mulher havia visto movimento lá (ela estava esperando no carro). Fomos e de fato agora estava aberto, mas para nossa surpresa, o atendente disse que os trens só voltariam a funcionar na madrugada de domingo para segunda, e ainda era a madrugada de sexta para sábado. Saímos da estação, e João me deu vinte pesos, e eu recusei educamente, afinal, mais 20 pesos não mudariam muito a situação. Depois dele insistir, eu aceitei, e perguntei quanto era a passagem de ônibus (que é bem mais cara, uma vez que o trem é 40 pesos) e ele falou que o que a filha ia tomar essa madrugada para Buenos Aires era 120. Eu já tinha 90 em papel, com aqueles novos 20, e disse que ia na rodoviária ver se eles não tinham uma passagem mais barata, e daí que João quis ir comigo.
Chegando lá, a passagem era 112, e ele deu o resto necessário, e ainda quis me dar mais dinheiro. Aceitei apenas o suficiente para a passagem, e agradeci, dizendo que era para ele me dar uma conta e eu depositaria de Buenos Aires, ao resolver o problema do cartão. Ele recusou, disse que não precisava. Apertamos as mãos, e prometi voltar ali algum dia, “talvez numa futura viagem com a namorada”, disse. Nos despedimos, e em pouco tempo meu ônibus saiu, comigo dentro, cansado desse dia longo, com um pouco de fome, e de volta rumo à Buenos Aires.
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Mudei a estrada, e comecei a pedir carona na estrada rumo à Olavarría, mas sem placa, e em poucos minutos um caminhoneiro que ia passar lá perto me levou.
Pouco tempo depois, desci em outro cruzamento, e fiquei perto do caminho que ia, enfim e de fato, a Olavarría. Ainda estava dia claro, apesar de já ser umas 18h, mas logo o sol começaria a se pôr. Esperei uma meia hora, e um carro parou, com um rapaz jovem que ia pra Olavarría. Agradeci mas não peguei a carona, e continuei ali. Passou mais um tempo, e vi um caminhão vindo. Pedi carona. Ele parou. Era o João, de novo, que havia ido ali perto descarregar. Fez uma cara de surpresa, expliquei o que houve, e resolvemos que era melhor eu ir pra sua casa, já que a noite se aproximava. Aguardei um pouco ele guardar o caminhão (e provavelmente avisar à esposa que eu estava indo) e fomos. Conheci sua casa e parte de sua família. Eu havia trazido desde Buenos Aires a sobra do macarrão que eu Amir e uma amiga dele fizemos na comuna, e ali na casa do João, aproveitei pra comer.
Tomei um banho em um quarto nos fundos da casa da mãe do João, que morava ao seu lado, e ali dormi, depois de comer um pouco mais de macarrão, beber uma cerveja e passar algum tempo conversando com João e a família, e por fim apenas com ele e sua filha, uma garota de 23 anos, bonita e educada mas um pouco distante, como as argentinas que eu tinha conhecido até então. Ela sabia português e gostava de música brasileira, e tinha passado um mês em Itaboraí, visitando o Brasil, e havia ficado na casa de um casal amigo de João. Por fim ele foi dormir, e ficamos conversando um pouco ela e eu, e foi curioso ver que ela ouvia muito Amy Winehouse também, como tantas pessoas ao longo da viagem, a começar pela Carol, no Rio, e várias pessoas pelo Brasil e também em Buenos Aires (na primeira noite na casa do Juan eu podia ouvir, do andar de cima, ecoar o som de uma das músicas do “Back to Black” da Amy). Ela me falou do primeiro álbum, “Frank”, e como Breno já havia falado também, resolvi que depois ouviria. Acabou que ela ia passar o álbum pro meu celular — que desde que entrara na Argentina não era mais do que um relógio com mp3 — mas esquecemos, esqueci, sei lá.
No dia seguinte, o João ia me levar de carro até um posto de gasolina onde ele conhecia o pessoal, e já que teria que sair de Olavarría até a ruta, que ficava a uns 4km da cidade, e ele ia me dar carona até o posto e ainda falar com os conhecidos pra me ajudarem, resolvi esperar e ir com ele, apesar de sair mais tarde do que gostaria pra estrada. Ele tinha apenas que resolver umas coisas antes, e nesse tempo eu fui procurar um mercado, pra comprar um saco de arroz, meu velho companheiro alimentar, e aproveitei pra ver a cidade naquela manhã meio fria. Caminhei pela rua, as casas e lojas ainda fechadas, apenas uma ou outra abrindo. Uma cidadezinha calma e quieta, me pareceu.
Voltei pra casa, esperei João chegar, e lá fomos nós, até o posto, com o mesmo senhor taxista que nos havia trazido pra casa no dia anterior. Chegamos no posto, João conversou com um frentista amigo seu, e foram embora. Eu fiquei lá em frente ao posto. Eram 10h40m da manhã. Aí começou minha saga. Passei longas, longuíssimas horas, tentando caronas. Fui até o posto algumas vezes, tentei falar com motoristas, mas ou não iam para Bahía Blanca, ou não podiam me levar. Um dos caminhoneiros até teve boa vontade de me levar, mas disse que estava esperando um amigo e que dependia do amigo — que era mais antigo na empresa e viajava em outro caminhão em comboio com ele — autorizar. O amigo chegou, e não autorizou, e quando fui falar com ele veio com umas desculpas esfarrapadas. Falta de colhões, já que era mais honesto dizer que preferia não me levar.
Já haviam passado 5h que eu estava parado ali, e nada, absolutamente nenhuma carona. Um tempo depois um casal simples numa caminhonete com seu filhinho parou e me levou até a saída de uma fábrica, de onde saiam mais caminhões. Eles poderiam me levar 100km mais adiante, mas, como no dia anterior, a julgar pela hora (umas 16h40m) eu chegaria no final da carona já perto da noite, e não queria ficar preso no meio do nada, já que, como já disse, não haviam cidades de médio porte sequer no caminho até Bahía Blanca.
Fiquei na saída da fábrica, e ali, ao contrário do lugar anterior, não havia absolutamente sombra alguma. Eu esperei mais de uma hora ali, e nenhum caminhão saiu da suposta fábrica — um prédio grande distante que me lembrava aqueles castelos medievais vistos de longe — e depois de algumas tentativas frustradas com os poucos caminhões e carros que passavam, comecei a fazer outros planos: iria voltar pra Olavarría, e como era sexta-feira, se tudo desse certo ficaria lá no quartinho dos fundos da casa da mãe do João já que ele fora tão solícito, aproveitaria pra lavar a roupa suja, e segunda-feira ia para Puerto Madryn com a carona de um amigo dele. Perfeito… Até tudo ir por água abaixo.
Já eram 18h30m quando desisti de pegar carona pro sul. Voltei andando até um trecho onde havia sombra, e dali resolvi pedir carona de volta pra Olavarría. O primeiro carro que passou me levou. Era um cara simpático, que trabalhava em uma empresa argentina que segundo ele havia sido comprado por uma brasileira, e ainda segundo ele, muitas empresas argentinas agora pertenciam a empresas brasileiras (como a cerveja Quilmes). Ele me levou até em frente de um cyber, e ainda me passou o contato de uma irmã que morava em Rio Gallegos, pra quando eu fosse mais pro sul.
No cyber, tentei ligar pro João, mas não conseguia, e por sorte achei a filha dele no facebook, que estava online, e conversamos. Ali e nas horas que se seguiram, vi que a situação estava mais complicada do que eu pensava.
(Continua)
E eis que resolvi sair de Buenos Aires e tentar descer um pouco mais pela Argentina. Saí um certo dia da comuna onde Amir morava, e fui porta afora, naquela manhã agradável, o sol no céu, e eu caminhando rumo ao metrô, as duas mochilas, e uma música na cabeça. Cantava animado, baixinho, “On The Road to Find Out”, do Cat Stevens (aliás, ainda postarei ela aqui). Tinha visto poucas horas antes como sair de Buenos Aires rumo ao sul como queria — peguei as informações em um site de caroneiros da Argentina, o Autostop Argentina.
Fui até a estação de trem “Plaza Constitución” e de lá peguei o trem pra Cañuelas. Desci na rodoviária e perguntei no guichê — já que não encontrei o número de ônibus que vi no site — qual ônibus tomava pra ficar na saída da cidade pra pedir carona, perto da Ruta 3. Haviam cinco homens lá, e conversaram entre si e no fim um deles me disse pra esperar, pois me levaria até lá. Ele tinha saído de serviço, e fomos até o cruzamento no ônibus vazio. Pensando agora, acho que foi a primeira e única carona em ônibus.
Andei até o cruzamento, e com minha placa recém-feita “Desde Brasil a dedo”, comecei a pedir carona. Meia hora e um caminhoneiro parou, e quando eu abri a porta e disse “hola”, ele respondeu “pode falar em português, eu sou brasileiro!”. Seu nome era João, mais precisamente “João Augusto da Fonseca Orfão”, como ele me disse, e o fato de me dizer o nome todo me fez guardá-lo. Só errei uma vez o “Fonseca” por “Teixeira”, mas ele me explicou que “da Fonseca” vinha de “da fonte seca”, falado com o típico sotaque português que não pronunciava o “te” de “fonte”, e daí não esqueci mais.
Como ficou um pouco claro, ele era descendente de portugueses. Nasceu no Brasil, mas vivia havia 38 anos na Argentina, e na longa viagem que tivemos, me contou um pouco da sua família. Mal sabia eu como ele acabaria me ajudando.
Tomei mate na viagem, e foi bem mais agradável, diferentemente do mate que havia tomado em Buenos Aires, com o Juan. Depois de várias horas de viagem, chegamos em um cruzamento onde ele iria para a direita, para Olavarría, a cidade onde vivia, e adiante a estrada seguia para Bahía Blanca, onde eu queria chegar. À esquerda, se podia ir a Mar del Plata. Aquele cruzamento ficava, assim como Olavarría, no meio do caminho entre Buenos Aires e Bahía Blanca. Chegamos ali por volta das 15h da tarde, e um vento frio soprava do sul. João me deixou em um posto, e com toda boa vontade ainda tentou falar com um outro caminhoneiro pra me ajudar, mas ele estava dormindo. Me deixou seu telefone, e me disse pra ligar para ele caso não conseguisse carona, e ele viria me buscar ali, de carro (Olavarría ficava a 40km dali).
Agradeci e fui pra estrada que seguia rumo à Bahía Blanca, e comecei a pedir carona, ainda com a placa “Desde Brasil a dedo”. Fazia um frio surpreendente pra aquele horário, e eu coloquei a camisa de flanela que levava comigo, presente da minha guria. Ainda assim o vento era bem frio, e fiquei preocupado ao pensar que em Bahía Blanca (onde eu felizmente tinha couch) estaria muito mais frio, sobretudo à noite, e só pioraria à medida que fosse pro sul. Esperei caronas, e nada. Depois de cerca de duas horas ali, um caminhão e um carro haviam parado, mas iam só 100km e 150km adiante. Eu precisava ir 300km, e não havia nada maior que uns vilarejos antes de Bahía Blanca. Considerando a hora, chegaria nesses lugares já no começo da noite, e não creio que nesse horário conseguiria carona para seguir, ou seja, ficaria preso no meio do nada. Agradeci mas recusei as caronas, já que ali, em último caso, poderia ligar pro João e teria onde dormir.
Esperei mais um tempo, já haviam se passado 2h30m e nada. Voltei caminhando até o posto, tentei perguntar a algum caminhoneiro, mas ninguém ia, ou podia me levar até Bahía Blanca. Um senhor me falou que eu estava pedindo no lugar errado, porque por mais que aquela fosse a ruta rumo à Bahía Blanca, o caminho mais curto pra lá era pegando a direita e passando em Olavarría, e portanto os caminhões usavam essa. Fantástico, a estrada que vai pra onde eu queria não é a melhor estrada pra ir pra lá.
(Continua)
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O cruzamento. A estrada embaixo à esquerda, é rumo a Bahía Blanca. Em cima, à esquerda, rumo a Olavarría. Em cima à direita, Buenos Aires. A última, é rumo a Mar del Plata.
Como Buenos Aires foi a primeira cidade fora do Brasil em que passei mais tempo (já que em Montevideo só fiquei uma noite), foi lá que comecei a notar as diferenças culturais mais curiosas.
Fechadura e chave argentinas
Por exemplo, as chaves são bem diferentes. São um tipo de chave na horizontal, mais bruta, maior, e menos detalhada que as brasileiras. Diga-se de passagem, me pareceram piores também, porque no período que estive na casa de Juan, inúmeras vezes tivemos que mandar consertar a chave, porque não estava abrindo a porta direito. O espaço na fechadura onde a chave entra poderia ser confundido com um lugar de botar moedas.
Uma coisa também interessante é que, diferentemente do que ocorre no Brasil, Buenos Aires é a maior centro urbano da Argentina, e também é a capital do país. Isso faz uma imensa diferença em termos de manifestação popular. Tanto é que, justamente por isso, nossa capital foi colocada tão longe de tudo, haha. A distância de qualquer centro urbano desestimula qualquer manifestação política. Se bem que, do jeito que o povo brasileiro é despolitizado em sua maioria, mesmo se a capital ainda fosse no Rio de Janeiro, talvez as coisas não fossem tão diferentes…
Aliás, isso é outra coisa culturalmente diferente: os argentinos e argentinas em geral são bem mais politizados do que os brasileiros e brasileiras. Por outro lado, é curioso notar que há grupos fortes de defensores e opositores à presidente, e os que a defendem, tem quase uma idolatria pela Cristina Kirchner.
Dentre outras coisas interessantes, poderia citar também a sujeira que são as ruas do microcentro de Buenos Aires durante a noite. No caso, comecei falando de um tipo de sujeira, mas tem mais de um. Explico: o serviço de coleta de lixo funciona de madrugada, por dois motivos, que seriam o fato de Buenos Aires ser uma cidade turística, e também porque os caminhões de lixo iam tumultuar o trânsito de dia, daí, ao cair da noite, as ruas começam a ficar cheias de sacos de lixo nas calçadas, e pra piorar vem um pessoal revirar os sacos em busca de material reciclável, e deixam as calçadas e cantos das ruas um tanto zoneados com o lixo. Entretanto, pela manhã, as ruas estão todas limpas, e ao cair da noite o ciclo recomeça.
O outro tipo de sujeira, que poderíamos chamar de visual, mas que pra alguns seria moral também: por todo o microcentro de Buenos Aires, que inclui a área perto do Obelisco, pode-se encontrar papeizinhos com divulgação de prostitutas. Me explicaram rapidamente que a prostituição nas ruas é proibida lá, e daí pelo visto os cafetões resolveram encher a cidade de papéis de divulgação, papéis um pouco menores que um cartão de banco. Em todo cartaz, poste, pedaço de parede, enfim, em todo canto, é possível encontrar fileiras de papeizinhos que são colados durante a noite por uns homens que pelo que notei são contratados só para fazer isso.
Não lembro se já comentei em outro post sobre as moedas. Em Buenos Aires (e em Mendoza também), os ônibus urbanos só funcionam com moedas. É, apenas com moedas. Você entra, coloca o valor das passagens em moedas em uma máquina quadrada do tamanho de um caça-níquel, com duas entradas e um pequeno visor, e caso passe do valor, cai embaixo o troco em moedas (em Mendoza a máquina não dá troco, se colocar a mais, já era). O mais maluco desse sistema de transporte público (maluco e anti-turístico) é que você pode ser o Silvio Santos, chegar com rolos e rolos de notas de 100 pesos, que se não tiver moedas, o motorista vai te mandar descer. Simples assim.
Pra encerrar esse post, vou comentar do momento de estresse/emputecimento que tive em um supermercado. Em Buenos Aires, em praticamente todos os supermercados que vi, o esquema de segurança é meio chato. Eles em geral ficavam incomodados com o fato do cliente entrar de mochila ou bolsa, contudo os armários que haviam pra deixar as coisas só fecha se você colocar uma moeda de um peso. A questão é que nem sempre você tem uma moeda. Deixei de entrar em alguns por causa disso.
Em uma das primeiras vezes (mas depois de já ter ido em outro supermercado com o Amir), entrei e fui tentando ver se havia alguém pra lacrar minha mochila pequena (sempre andava com ela), ou se havia alguma placa dizendo que não podia entrar de mochila. Como não vi, continuei andando. Em uns vinte segundos, caminhei até o corredor de biscoitos, que fica ao lado dos caixas, olhei sem tocar em nenhum, não encontrei o que queria e virei as costas pra sair. Quando ia chegando na porta, o segurança (que estava lá quando eu entrei) me disse que eu ia ter que abrir minha mochila. Eu, incomodado mas ainda educado, falei que mal havia me afastado da entrada, e que não havia tocado em absolutamente nada (ele poderia ver até mesmo da entrada, se quisesse prestar atenção em mim quando entrei). Ele insistiu que ia ter que revistar minha mochila. Me emputeci, falei que ele não ia revistar nada, e como ele insistiu que teria que revistar, levantei a voz e mandei ele chamar a polícia então, porque minha mochila ele não ia abrir. Ele, com a voz mais baixa, só disse “todo bien, pase, pase”. E fui embora, puto, e não voltei mais naquele supermercado.
(No próximo post, enfim, Olavarría)
